Sou negro. Negro por definição. Assim como uns são altos, gordos, brancos, eu sou baixo, magro e negro. Minha mãe, descendente de índios e portugueses, nasceu clara. Meu pai, descendente de africanos e italianos, nasceu escuro. Eu, fruto da miscigenação como tantos outros, por algum capricho genético, nasci com lábios grossos, cabelo crespo e pele escura.Por que negar-me como negro? Ou por que afirmar-me como tal? Pois sou negro assim como tenho 1,68 MT ou como calço 39. Ser negro é uma das coisas que me fazem ser como eu sou, e não o que me faz ser quem sou.
Por isso, não entendo por que as pessoas têm a necessidade de rotular uns aos outros. Negros, nordestinos, pobres, Brancos ou ricos, que diferença isso faz? Afinal, antes de sermos de raça branca, negra, amarela, ou sejalá qual, pertencemos a raça humana. O sangue que foi derramado na guerra em Ruanda é da mesma cor que o derramado nas guerras européias, ou nas ruas em São Paulo. Vermelho: tanto o do ariano quanto o do africano, vermelho.
Então, por que um negro ter se candidatado à presidência é algo tão extraordinário assim? Ou seria tão estranho um menino mendigar caso ele fosse branco e tivesse olhos azuis? Desde quando deixamos de ser João, Maria, Marcos e Ana, e passamos a ser meros estereótipos de uma raça ou de uma classe social.
É claro que reconheço a herança cultural que os negros trouxeram ao mundo: o rock, o jazz, o samba, o axé e a capoeira. A ginga, a força, o largo sorriso branco, as curvas da mulata. Mas não posso aceitar ser definido pela cor da minha pele. Só por que sou negro, tenho de gostar de samba? De ser craque em futebol? De ser pobre? Eu decido quem eu sou! Eu decido do que gosto, o que quero e o que faço. Não interessa que eu seja negro, ou calce 39. Pois a maior liberdade que a abolição nos trouxe, é a de sermos quem quisermos ser.
Os olhos do poeta Sereno e ambíguo E suas ideologias Trançadas em um eterno rastafári Que não se desfaz
Os gestos sutis De sua capa ao vento Ao vento vai Em lento caminhar Poetizar o sussurro da noite Poeta soturno No escuro a filosofar: Por que amanhece?
E amanhece o dia, É que não morre esta poesia Que tu fabricas Em teu louco pensar...
O rapaz sentado na escada... Lê um livro de poemas Ninguém percebe Está em seu horário de almoço E toda atenção do rapaz Ao ler um livro no trabalho Há um quê de ousadia As pessoas olham Julgam conhecedor de algo Santa ignorância! A poesia não pragmatiza as coisas Flui como as águas de um rio E sem pretexto Nem objetivo Sabe exatamente aonde quer chegar
Nada sabe Nem sequer sabe que não sabe Sente Inocente Displicentemente lê No ambiente em derredor As pessoas lêem apostilas de concursos públicos Livros de auto-ajuda E não se ajudam Olham com desdém o rapaz Lendo o livro, distraído Sem dar conta do horário de almoço já acabar...
Quando acordo para a realidade Sei que meu sonho se realiza; Metade de mim é que acredita nisso E a outra metade faz um compromisso.
Se penso que posso mudar o mundo Sinto-me tenso e atentando a tudo; Metade mim é uma poderosa bomba E a outra metade explode e assombra.
Pois se eu decido que vou amar alguém, De olhos fechados, boca aberta e refém... Metade de mim se doa a este intuito E a outra metade já se toma por fortuito.
Metade de mim é um desejo raro E a outra é um violento faro Da minha metade de mim que quer ação Pra outra metade executar a transformação.
Assim, metade de mim é meu próprio fragmento E as outras metades são somente alimentos Dos meus Desmantelamentos
Desmache de lamentos. Desfacelamento. Cancelamento Do cancelamento. Aumento! Manto, Mente, Minto, Monto, Mundo...
Metade de mim só quer viver até morrer E a outra metade quer o eu que sou você
A Metade da Metade pela Metade: São todas elas uma só verdade!
...
Me invade! Me alarde! Me arde! Me deu! Me Eu! Ué?! MEU!
Entrei no ônibus. Paguei a passagem, olhei para trás: embora ninguém estivesse de pé, todos os lugares estavam ocupados. Antes da roleta, um banco vazio. Se ninguém estava de pé, por que eu ficaria?
- Ô motorista, eu não vou passar agora, tudo bem?
Sentei, abri meu livro. “Dentes ao sol”, de Ignácio Loyola. Eu, num banco atrás do motorista, uma moça gorda num banco ao lado dele.
No ponto seguinte, entram dois sujeitos. Nenhum dos dois gira a roleta.
Escuto um zum-zum-zum. Olho para frente. Um dos homens – o com saco na mão – diz:
- Paraí, paraí!
A mão dentro do saco-plástico, uma saliência nele apontada para o motorista (Seria uma arma?).
- Vai, coloca o dinheiro aqui dentro!
Meu Deus é um assalto mesmo! O motorista, um branquelo, a gorda e eu - todos do lado errado da catraca (por que eu não atravessei essa joça?). O meliante dirigiu-se ao outro:
- Não tenta nada, cara!
Se o branquelo em pé não ia reagir, muito menos eu! Baixei a cabeça, fingindo não perceber o que acontecia.
- E você mina, passa a grana.
- Tô sem!
- E cadê o celular? Anda!
O motorista-cobrador ia jogando as notas e moedas pela boca do saco, enquanto o gatuno ameaçava a rechonchuda. Por quanto tempo conseguirei ignorá-lo? Por quanto tempo ele irá me ignorar?
Preciso esconder minha carteira. Justo no dia do pagamento! Toda vez que saco o cheque no banco, divido as notas pelos bolsos deixando sempre um troquinho na carteira para “pagar pedágio” caso algum trombadinha me pare. Justamente hoje, resolvi colocar tudo junto, dobrado ao lado do RG. O suor do mês inteiro, que nem me pertencia: já estava destinado aos credores, ao arroz, feijão, água, luz e telefone...
Tenho de ser rápido. Cínico. Fingir naturalidade. Colocar a mão no bolso, jogar a carteira no vão do banco.
Pronto!
Mas e se ele perguntar “cadê a carteira”, o que eu respondo? “vim sem hoje”? Talvez ele até seja ignorante, mas burro? Não sei não. Devia ter tirado o dinheiro. Deixado uns trocados pra lhe dar. Mas como fazer isso sem chamar atenção? Eu não posso pender esse dinheiro. Para a empresa de ônibus não faz falta, mas pra mim...
Bem que o ladrão podia ser compreensivo. O quanto ele tem que ralar, os riscos que tem que correr, para o assalto-de-cada-dia. Roubar assalariado, já basta o governo!
Bom, esse argumento não é lá muito convincente. Não pra quem está armado pelo menos. Se é que isso é arma! Vai ver é o dedo dele apontando a idiotice de quem acredita. A minha idiotice, a do motorista, a do brancão já pálido, a da balofa.
E se eu reagisse? Ele parasse não ter me percebido aqui, atrás do vidro que me separa do motorista. Já vi tantos filmes de kung-fu. Assisti Matrix, joguei Street Figther. Não é possível que não tenha aprendido nada? Talvez um golpe bem colocado... um chute no saco (não o do dinheiro, o outro). Não dá. Nem reagi e já sinto dores. Uma agulhada na espinha. O medo se parece com mil injeções dadas de uma vez só na coluna. Quem já tomou peridural entende o que quero dizer.
O coletivo parou. A esse altura, os ‘além da roleta’, já devem ter percebido. Agora é a hora da coleta. Passar a sacolinha pelos (in)fiéis, arrecadar o dizimo que no meu caso é de cem por cento. Minha carteira, será que caiu?
A porta abre. O desordeiro corre levando o saco. Um Pai Noel fora do Natal. Talvez seja um presente para as criancinhas, he-he-he. Ah, minha carteira. Legitimo coro marrom falsificado. Vale 30 dias de labuta. Intacta.
A mulherada lá atrás começa a se abanar. Passam mal, resmungam, choramingam.
- Não pára não, motorista.
- Ladrão.
- Drogado.
- Marginal.
- Você viu, ele tava armado!
É. Armado com um dedo esticado!
O motorista, coitado, sem experiência nessa função de assaltado (num mundo globalizado, acumulam-se tarefas), fica parado.
- Você quer que eu ligue pra policia?
- Toca pra delegacia!
- Vou perder a novela!
- Alô. Eu estou aqui na... que avenida é essa mesmo?
- Taboão. Próximo a Anchieta.
- Escuta: estou perto da Anchieta. Avenida do Taboão. Isso. Não, eu tô no ônibus. É que teve um assalto... não, não eu, o ônibus. É. O sujeito tá correndo com um saco amarelo na mão. Atravessou a pista. É . Agora mesmo. Negro, cabeça raspada.
Negro, cabeça raspada. Ainda bem que ela disse que ele está fora do ônibus. Se a policia viesse, podia achar que era eu. Mas é difícil a policia vir. Estão ocupados parando motoqueiro, dando batida em mulatos de boné, comendo rosquinha, ou seja lá o que fazem ao invés de prender ladrão.
O motorista segue para a DP mais próxima. A maioria dos passageiros desce antes, apavorados. Mas todos eles estavam fora, atrás da catraca, não foram vitimas diretas.
O ônibus para em frente à delegacia. Eu, que nem cheguei a atravessar a borboleta metálica, passei meus dados e desci para ajudar no B.O.
Pena estarem em troca de plantão e não ter ninguém para registrar a ocorrência! Se bem que assim, eu chego mais cedo em casa. Afinal, amanhã logo cedo, enfrento tudo isso de novo.
─ Olha filho, que dia bonito! E você? Não vai brincar com seus amigos?
─ Não posso...
─ Por quê?
─ Estou pensando...
─ Pensando em quê?
─ Na vida, mãe, na vida!
─ Você? Pensando? Na vida?...Quer me matar de rir, menino? Ai, ai...
─ É sério, mãe! A vida é tão curta e eu tenho que...
─ E você só tem nove anos, esqueceu?
─ Nove e meio, quase dez!
─ Mas qual a razão desse abatimento? Diz aqui pra mãe, diz.
─ Estou tão desiludido da vida...
─ O quê? Não acredito que estou ouvindo isso, disse a mãe desatando a rir.
─ Não ri, mãe! Tô falando sério, meu! Cansei dessa vidinha sem graça. Eu queria revolucionar o mundo, sabe? Fazer alguma coisa notável; deixar a minha marca. Queria ser “O cara”, entende? Ter uma estátua minha, uma rua com o meu nome, um quadro meu... só sei de uma coisa: não quero ficar anônimo pro resto da vida!
─ Como assim? Quer virar celebridade?
─ Ah, mãe! Mais ou menos, viu...
─ Como mais ou menos? Você não quer é ser famoso, ser artista de cinema?
─ Não; eu não queria ir pra Hollywood, eu queria coisa ainda melhor. Ser como Einstein, Leonardo da Vinci, como Beethoven... ter uma grande obra , um grande feito.
Assim, iam “pagar pau” pra mim pelo resto da eternidade!... Pelo resto da eternidade! ─ repetiu dando ênfase.
─ O que é isso, Lucas?Quem te ensinou estas coisas? Com a sua idade as minhas preocupações eram: ir pra escola, brincar, fazer a lição de casa e só. Ah! E me comportar, ser uma boa menina, se não o Papai Noel não dava presente no fim do ano.
─ Papai Noel não existe! É tudo marketing, pra fazer comercial na TV e todo mundo ir torrar o décimo terceiro no shopping. Pensa que eu não sei, é?
─ Ai filho... você é uma figura!
Nesse momento a porta se abre.
─ Eduardo, ainda bem que você chegou. Tem que ouvir isso. Imagina que esse menino...
─ O que foi dessa vez, Luiza?
─ Não sei, não. Ele anda com umas idéias esquisitas...
─ Semana passada ele disse que ia se casar com aquela coleguinha de classe. E agora?
─ Ele disse, (vê se tem cabimento) que estava “desiludido da vida” e também que quer revolucionar o mundo, ser “O cara”... cada ideiazinha...
─ Me explica isso direito, quero ver se eu entendo. Você disse que ele...
(O filho interrompe a conversa)
─ Com três anos de idade, Mozart já arrebentava...e eu que já sou um homem feito não sei fazer nada. Não me conformo! Quero ser grande, importante...legal, irado, sabe?
─ Mas você já é filho, dizia o pai todo coruja. Tão bonito tão inteligente que você é. O orgulho do pai!
─ Não, pai! Eu queria ser importante como os caras que estão nos livros que você comprou pra mim; aqueles que a professora tanto fala! Ser um grande gênio, sabe?
(A mãe chama o pai a um canto)
─ Eduardo, isso é culpa sua! Você trouxe aqueles livros e mandou ele ler ( como se não bastasse o que ele aprende na escola) aí, ele enche a cabecinha de coisas. Não é mais como os outros garotos da idade dele: não quer sair, nem jogar bola, só fica o dia inteiro lendo ou pesquisando no computador. Passa o dia inteiro, como ele diz “na net”.
─ Eu só quis dar a ele um pouco mais de instrução que nós não tivemos, defendeu-se.
─ Ele é meio ─ justificou a mãe entre preocupada e confusa─ meio, meio...esquisito...
─ Esquisito, não: diferente! ─ interrompeu o pai
De repente, entra o filho na sala todo saltitante e grita:
─ Já sei vou assassinar alguém! ─ disse, com a maior naturalidade desse mundo─quem sabe o presidente, não sei...
Os pais, boquiabertos, entreolharam-se brancos de susto.
─ Co-mo-é-que-é?!
O menino repete a idéia que teve .
Silêncio; quebrado pela mãe:
─ Está louco por acaso? Não diga isto nem de brincadeira.
─ Que idéia é essa filho? ─ enfim indagou o pai.
─ É que eu quero ser grande, pai!
─ Grande? É, já sei ...ah, sim! E ser um assassino é ser grande? Ahã...muito bonito...
─ Se conseguir matar alguém importante, sim! Eu entraria pra história. Meu nome em todos os livros, revistas, manchetes de jornais... pra sempre!
─ Moleque! Nunca ouvi tanta besteira e você não sab...
─ Ah, é? O cara que matou o presidente Kennedy, não ficou famoso? E o cara que matou o John Lennon, então hein?
─ Sim, sim claro! Vá em frente, mate, mate. E depois que ficar “famoso” “O cara” o que vai fazer ? como vai viver na prisão e sendo odiado por tanta gente?
─ Não sei! Eu sou só um menino: só tenho nove anos!
─ Tem nove anos e meio, quase dez ─ disse a mãe─e, agora pouco, você disse que já era um “homem feito” lembra-se?
─ Mas vocês não me...
O pai toma a palavra:
─ Filho, olha aqui pra mim. Escuta: tudo bem que você queira ser alguém na vida, queira ser reconhecido. Mas você não precisa ser igual a ninguém e nem provocar escândalos e tragédias para aparecer. Deve se destacar, sim! Mas pelo que você é. E sabe de uma coisa?
─ Quê?
─ Pra mim você pode ser o que quiser: cientista, escritor, filósofo, advogado, músico, pintor, cozinheiro e até gari. Mesmo se não tivesse profissão e não fosse ninguém, quer dizer, ninguém pra esse mundo, eu me orgulharia de você. Pois eu não preciso ver o reconhecimento dos outros pra me convencer de que você é o mais importante, que é grande, que é o melhor do mundo!
E deu um abraço apertado no filho.
─ Vai brincar, vai. Você ainda tem muito tempo para decidir o que vai ser na vida. Deixe de ser precoce, menino! ─ disse em tom juntamente repreensivo e doce.
─ Vamos meu prodígiozinho, brincou a mãe.
Na manhã seguinte (de domingo) o pai se encontrava na varandinha da modesta casa, lendo costumeiramente o seu jornal, quando o filho veio o interromper:
─ Pai, o paiêêê!
─ Tão cedo? Caiu da cama, menino? E vem assim: descalço. Aposto que ainda nem escovou os dentes.
─ Não. É que eu tinha uma coisa pra te contar; não dava pra esperar não.
─ O que é, hein? Vê lá...
─ Já sei...
─ Já sabe o quê?
─ O que vou ser quando crescer.
─ Ah...
─ Vou ser...
─ Escritor? Ah! eu sabia...
─ Não!
─ Não?
─ Não.
─ E o que vai fazer pra ser grande, pra ser importante, “O cara” como tanto diz?
─ Eu vou ser um pai legal que nem você é.
Lidiane Santana
Não sei se todos conhecem, por isso postei. Escrevi isto quando tinha dezessete para dezoito anos. Nessa época eu ainda sonhava em constituir família. Agora sei que ter filhos é uma grande cilada e apoio o controle de natalidade, longe de mim fazer apologia a reprodução nesse mundo superlotado e exausto, nem almejo idealizar um mundo cor de rosa. Não tenho o menor interesse em ter um pirralhinho dependente de mim (por inúmeras razões), mas admiro os bons pais e ainda guardo este texto. Os valores mudam, mas a ternura fica.
Lá estão os dedos Perfurados Que perfuram O couro Sobre a mesa A tesoura e o estilete Sobre a alma O peso de costurar o amanhã É manhã Como qualquer outra
Ouve o silêncio que está lá fora Ouve! Ouve o silêncio que pela alma corre Ouve! Ouve o zumbido que ecoa do ouvido Ouve! Ouve as máquinas no seu sem sentido Ouve! E canta com elas melodias tenebrosas E ouça sua própria voz se confundindo com o motor Ouve! Mas não ouça os seus pensamentos Não ouve! Pois quando ouvi-los Irá chorar E pensar O que houve de haver E nunca haverá nada do que houve É vida o que você perdeu nesta manhã E amanhã?
Pegue a fôrma A que deforma E vejo onde seu pé se encaixa Mas não coloque nele Os seus sonhos Seus pés estão sujos Seus pés estão sujos...
Erga a cabeça Olhe adiante Diante da janela É o Sol Ele sempre brilha Mas este vidro escuro não percebe Não percebe Não!
É o fim É o fim de um futuro final É o fim de um instante É o fim de tudo É o fim do expediente E a vida só volta amanhã De manhã Ouve! Não Ouve? Não! Não há de haver o que houve ou haverá
Aos vinte e sete, a fim de prolongar o viço da juventude, Gisele resolveu levar uma vida mais saudável:
Largou de fumar a duras penas. Em seguida, abandonou “as baladas” para dormir às oito horas por noite que seu corpo tanto exigia. E com o fim da vida noturna, foi diminuindo o consumo de álcool gradativamente; primeiro cortou os destilados (que lhe deixavam “alta” facilmente), depois a cerveja (que lhe conferia a desagradável barriguinha), e por fim, como não era fã de vinho, tornou-se totalmente abstêmia.
Voltou-se então para a alimentação: Parou de comer doce – evitando as calorias, massa – reduzindo os carboidratos, queijo e leite – cortando a lactose, e finalmente a carne vermelha, adotando o vegetarianismo como estilo de vida.
Ficou um bom tempo satisfazendo-se a base de peixe, saladas e grelhados, até perceber que isso ainda não era o bastante; as hortaliças eram cheias de agrotóxicos, os peixes viviam em águas contaminadas, as aves ingeriam rações de origem duvidosa.
Era necessário radicalizar, livrar-se de uma vez por todas de toda e qualquer impureza vinda dos alimentos!
O resultado dessa dieta radical? Foi atestada seis meses depois:
"O verdadeiro poeta, porém, o poeta tal como o imaginamos, está subjugado ao seu tempo, do qual é vassalo e lacaio, seu servo mais baixo. Encontra-se atado a ele com uma corrente curta e ilacerável, está preso a ele, sua falta de liberdade precisa ser tão grande que ele não possa ser transplantado para nenhum outro lugar. Sim, não fora certo sabor ridículo diria simplesmente: o poeta é o cão do seu tempo. Passa correndo por seu território, para a aqui e acolá; aparentemente por vontade própria, porém sem se cansar, suscetível a assobios vindo de cima, mas nem sempre, é fácil atiça-lo, difícil chamá-lo de volta, ele é movido por uma devassidão inexplicável; sim, mete o focinho úmido em tudo, não deixa nada de fora, e também volta, recomeça, é insaciável; de resto, come e dorme, mas não é isso que o distingue dos outros seres, o que o distingue é a assombrosa pertinácia do seu vício, esse usufruir intenso e minucioso, interrompido pela correria; assim como nunca está saciado, nunca consegue o que quer com a rapidez necessária; é como se tivesse aprendido a correr expressamente por causa do vício do seu focinho."
“E esse mesmo cão, que durante toda a sua vida corre atrás dos desejos de seu focinho, esse fruidor e vítima involuntária, ao mesmo tempo caçador e presa do prazer (…) deve, num átimo, estar contra tudo, pôr-se contra si mesmo e contra seu vício, sem, contudo, poder jamais libertar-se dele (…); uma exigência tão cruel e radical quanto a própria morte. / É, aliás, da morte que deriva essa exigência. A morte é o fato primordial, o mais antigo e, estar-se-ia mesmo tentado a dizer, o único. Tem uma idade monstruosa, mas se renova a cada hora”
Elias Canetti, “Hermann Broch”, em A consciência das palavras - Tradução: Kristina Michahelles
Faltando quatro semanas para o final da décima edição do Big Boss Brasil, a pesquisa mental aponta uma mudança brusca nas intenções de voto.
O reality show, que elege de forma democrática nosso presidente nos próximos dois anos, tinha como favorito o Presidente Paulo Tadeu, que defendia seu terceiro mandato consecutivo.
E não é à toa: ao administrar no BBB um país virtual, tendo suas ações, palavras e pensamentos acessados por toda a população, o Presidente P.T. angariou a maior aprovação popular da história.
Mas o quadro se reverteu na ultima terça-feira, quando P.T foi flagrado tendo pensamentos indecorosos em relação à candidata Sandy X.
Os partidários do Presidente alegam que, embora aparente Nove anos de idade, a candidata X possui a madureza de uma mulher de 40 e a mente de Ainsten.
Mas o argumento não impediu que o Presidente fosse ultrapassado nas pesquisas por seu maior concorrente, o candidato Símio Charles Darwin de Castro. O Brasil não tinha um animal sapiens como candidato desde 2089, quando a preguiça Itamamara perdeu as eleições por uma diferença de cinco pontos percentuais. Se Darwin ganhar, será o primeiro animal inteligente a presidir nosso país.
Conseguiremos dar este novo passo rumo à democracia?
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