sexta-feira, 21 de maio de 2010

Somos Sapatos?


André Camargo

 


"Na Vida Somos como Sapatos...




Começamos jovens, belos, fortes, sem sujeiras...



Mas machucamos os calcanhares, tropeçamos, não temosm formas próprias e muito menos caracteristicas unicas...



Assim como os sapatos com o passar do tempo, mudamos, vamos nos moldando aos pés da vida...



Até que um dia já velhos, não estamos tão bonitos e nem fortes...



Mas temos experiencia, conhecemos os buracos, temos forma e caracteristicas próprias!!!



Enfim um dia assim como os sapatos somos rasgamos, furamos, ou de tão poidos somos jogados fora...



Porem Deixamos pegadas por onde passamos..." 


http://opsicofago.blogspot.com/2010/05/somos-sapatos.html

terça-feira, 11 de maio de 2010

“sonho com serpentes”


M. C. Escher


Edson Bueno de Camargo

“Sueño con serpientes, con serpientes de mar,
con cierto mar, ay, de serpientes sueño yo.”
(Silvio Rodríguez)


que se envolvem entre si
em carne viva
em exposição
em expiação sangrenta

ninho coleante
e viscoso
gangrena dos ossos
vulcão orgânico e pestilento
de ovos
de larvas
de morte lenta adiada

tenho muitos olhos
tenho muitas bocas
e muitas línguas todas bífidas
o cheiro do medo buscam

sonho que estou vivo
(quando morto)
e andando
não caminho um metro sequer
sufoco em líquido
e meus movimentos são pulmões afogados
me afundam na areia movediça
nada me conduz
sob este céu insano

falo o som das escamas
dos estalidos de pequenos ossos
e palavras
com o fogo feroz
dos olhos animais acuados
fogos fátuos
e versos metálicos da palavra réptil

“sonho com serpentes”
e estas me devoram os olhos

domingo, 18 de abril de 2010

Zabé da Loca




és como foi minha avozinha
lenço amarrado na cabeça
olhos grandes de olhar comprido
destes que devoram tudo com carinho
e cuidado
gente de granito e pés suaves
mesmo para trilha de pedras

muheres com dobras e rugas
quase uma centena de anos cansados
rostos com sombras
e o dedo com o osso apontado

mulheres de parar o vento com o silêncio
e mover pedras com o sussurrar
constroem casas com barro
cacimbas no seco
donas da terra e da água
e  aproximam o ventre do ar


senhoras que vestem o mundo
e tecem com os panos
e fiam o algodão das nuvens

ai que os anjos esfarrapados da caatinga
os anjos vaqueiros e pascentadores de bodes
os anjos moleques a tramar travessuras
os anjos de todas as partes e os afogados
e o louco poeta na margem da metrôpole

todos param para ouvir
um pedaço de cana soar as trombetas do céu







sexta-feira, 16 de abril de 2010

timoneira de naufrágios



Edson Bueno de Camargo

lendo Daniel Mazza

o poeta
coleta ossos do verbo
para que se esclareça
o tempo e palavra

a morte fuma
cachimbo de marinheiro
a fumaça entre os dentes sem lábios

velha timoneira de naufrágios
ancorada em um cais seco
nas margens do Mar de Aral

terça-feira, 6 de abril de 2010

geografia perfeita para insetos


 
 
Edson Bueno de Camargo

a sombra
desta árvore
abriga uns silêncios
expectativa
e algo mais que não se distingue


linhas do tempo dos sonhos
já não se desenham
em sua casca


estas se fazem na calçada
suas irregularidades
geografia perfeita para insetos
contam histórias aos geomantes

sexta-feira, 2 de abril de 2010

a fome


 Traudi Ingrid Meurer



Edson Bueno de Camargo


recobrou o olho
e este tinha fome
a fome insaciável dos olhos

e o olho cobrou a fome
desde os tempos imemoriais da fome

o quanto dar de comer ao olho
se este não se sacia

quanto de velhas fotografias
tanto de livros amarelos
jornais dobrados até se tornarem quebradiços
cartas de amor não correspondido
e flores e frutos secos guardados em gavetas

quanto de moedas antigas
de quinquilharias


a fome voraz de papéis velhos
e dedos envelhecidos
óculos para miopia

de tantos e todos tempos e temperos
que calaram em renascimentos

e ai se destilou o dia
com a luz coada
de olhares furtivos pela janela
e seus vidros ensebados e turvos
cor que se esmaecia