domingo, 21 de fevereiro de 2010

na origem os pés

"Foto de uma das pegadas de 1,5 milhão de anos descobertas no Quênia."


Edson Bueno de Camargo


para Antônio Jorge Valério



na origem
os pés pisaram 
este chão de basalto cristalino

planalto de pó e de origens
de plantas planares
em argila de ocre vermelho
dos ventres pungentes
que ainda gerarão a humanidade
(e de novo
e de novo)

somos todos africanos 
em nossa origem humana
todos exilados do terreno
da pátria primeira

foram os pés de nossos antepassados
fincados na terra
que nos trouxeram aqui

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sapatos


Meu pé anda empurrando o sapato;
Tamanha é minha vontade de seguir...
Meu sapato carrega meu corpo;
Tamanha é a vontade de partir...
Meu corpo já não tem alma;
Tamanha é minha vontade de sumir...
Minha alma já não tem lar;
Tamanha é minha vontade de existir...

Tirei meus sapatos e morri!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

FECHAMENTO DA SAPATARIA

PASSO O PONTO!

Devido a minha falta de tempo associada a minha preguiça crônica, passo a moderação desse blogue para quem pedir primeiro, ou mesmo sugiro seu fechamento e que todos postemos nossos textos no blogue "SARAU DA TABA".

Jorge de Barros
Sapateiro Cansado

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

SACIS URBANOS



foto Cecília Camargo

 by Edson Bueno de Camargo

as potestades
e as autoridades constituídas
só verão como são de fato as coisas
além de suas lunetas que só vê dinheiro:
quando o saci
lhes roubar um sapato de cada par

um dia os senhores da terra
vão acordar
e não vão encontrar um único pé esquerdo dos calçados

(neste dia
riremos de estourar as iguargas
eu e o negrinho do barrete vermelho)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Surto


O impulso traz o imprevisível
O pensamento deixa de surgir
Se antes havia compreensão de atitudes...

O que sobra
São instintos sufocados
Ante uma crise de raiva
Em que as pessoas cometem
Por coisas ridículas e ilusórias
Que insistem em prevalecer

Tira o embaçamento da lente que nada enxerga!
A vida não é flor que dura a vida inteira
Se estás no abismo, na beira
Pula que nada te resta
A vida sempre foi
E será circunstancial
Ou supera ou se sucumbe
No materialismo supérfluo
Nos tornamos ervas daninhas
Pelo ato de não enxergar o sol

A mim me basta
As atitudes ridículas
Ante o cenário da vida
Tudo enfim é circunstância pela qual vivemos,
Tudo.

Ederson Rocha

sábado, 23 de janeiro de 2010

Sendeiros...

Dois lados
De uma mesma senda
Uma firme como pedra
O outro fluente flexível
Como as águas de um rio

Um é vencido pela rigidez
O outro, pelo perdão
Um almeja acordar corações
Outro, aquecer corações
E ao redor a vida
Infinito mar de possibilidades
Cheia de abismos e precipícios

A vida, um deserto
Ao longe a miragem viva do sublime
No meio, uma pedra de tropeço
Quando um busca o prazer de viver
O outro se inebria
Na beleza da canção

Caminhar é relativo
Um passo requer o uso preciso
E o calculo das probabilidades
Além das circunstâncias
Suas mentes enxergam horizontes
Não nasceram para o habitual
Lutam cada dia
Contra o olhar comum e corrente

Um demonstra o olhar da indignação
O outro revela a ausência de compaixão
E a vida ao redor os corrompe

Um se constrói daquilo que faz
Mostra-se por inteiro
E cultiva a guerra
Contra a inércia e o conformismo
Dos valores que se dissolvem

O outro
Busca com a própria vida
O ascetismo místico e utópico
Cultiva a inquietude
A aspiração da supra-consciência
A mente em constante movimento
Questionamentos
O olhar na raiz do nariz
A auto-observação de si é uma pérola
Fruto do que trazemos no peito

Antítese ou
Absurdos da reflexão
Fato consumado da sublimação
Alquimia que se funde
Na desmistificação da vida
No instante em que o absurdo é belo
E o perfeito imperfeito
Na razão dos sem razão

Enfim
Viver é uma constante luta voraz
Que ninguém escapa
E a utopia, tão sedutora
Dominou seus corações...



Ederson Rocha

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Sapateados



Bem na ponta do solado

alçado da bailarina

num vôo sincronizado

paira a graça repentina.


Pula-cordas estalado

salteado que fascina

tornozelos arranhados

pés descalços de menina.


O objeto mais cobiçado

dado à ala feminina

ter centenas de calçados

tal Carlota Joaquina.


Mas, por caminhos forçados

ao lado, cruzam a esquina

o all star tosco e surrado

e o scarpin de orla fina.


Lidiane Santana