sábado, 19 de dezembro de 2009

Entrelace


Lembro que chovia

e os meus sapatos se encheram de lama

um aperto só: quase não havia lugar

a bebida não prestava

a música era ruim

a gente, vulgar

mas não é que no fim das contas

eu estava

com quem eu queria estar?

Lidiane Santana

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

PRECOCE



─ Olha filho, que dia bonito! E você? Não vai brincar com seus amigos?

─ Não posso...

─ Por quê?

─ Estou pensando...

─ Pensando em quê?

─ Na vida, mãe, na vida!

─ Você? Pensando? Na vida?...Quer me matar de rir, menino? Ai, ai...

─ É sério, mãe! A vida é tão curta e eu tenho que...

─ E você só tem nove anos, esqueceu?

─ Nove e meio, quase dez!

─ Mas qual a razão desse abatimento? Diz aqui pra mãe, diz.

─ Estou tão desiludido da vida...

─ O quê? Não acredito que estou ouvindo isso, disse a mãe desatando a rir.

─ Não ri, mãe! Tô falando sério, meu! Cansei dessa vidinha sem graça. Eu queria revolucionar o mundo, sabe? Fazer alguma coisa notável; deixar a minha marca. Queria ser “O cara”, entende? Ter uma estátua minha, uma rua com o meu nome, um quadro meu... só sei de uma coisa: não quero ficar anônimo pro resto da vida!

─ Como assim? Quer virar celebridade?

─ Ah, mãe! Mais ou menos, viu...

─ Como mais ou menos? Você não quer é ser famoso, ser artista de cinema?

─ Não; eu não queria ir pra Hollywood, eu queria coisa ainda melhor. Ser como Einstein, Leonardo da Vinci, como Beethoven... ter uma grande obra , um grande feito.

Assim, iam “pagar pau” pra mim pelo resto da eternidade!... Pelo resto da eternidade! ─ repetiu dando ênfase.

─ O que é isso, Lucas? Quem te ensinou estas coisas? Com a sua idade as minhas preocupações eram: ir pra escola, brincar, fazer a lição de casa e só. Ah! E me comportar, ser uma boa menina, se não o Papai Noel não dava presente no fim do ano.

─ Papai Noel não existe! É tudo marketing, pra fazer comercial na TV e todo mundo ir torrar o décimo terceiro no shopping. Pensa que eu não sei, é?

─ Ai filho... você é uma figura!

Nesse momento a porta se abre.

─ Eduardo, ainda bem que você chegou. Tem que ouvir isso. Imagina que esse menino...

─ O que foi dessa vez, Luiza?

─ Não sei, não. Ele anda com umas idéias esquisitas...

─ Semana passada ele disse que ia se casar com aquela coleguinha de classe. E agora?

─ Ele disse, (vê se tem cabimento) que estava “desiludido da vida” e também que quer revolucionar o mundo, ser “O cara”... cada ideiazinha...

─ Me explica isso direito, quero ver se eu entendo. Você disse que ele...

(O filho interrompe a conversa)

─ Com três anos de idade, Mozart já arrebentava...e eu que já sou um homem feito não sei fazer nada. Não me conformo! Quero ser grande, importante...legal, irado, sabe?

─ Mas você já é filho, dizia o pai todo coruja. Tão bonito tão inteligente que você é. O orgulho do pai!

─ Não, pai! Eu queria ser importante como os caras que estão nos livros que você comprou pra mim; aqueles que a professora tanto fala! Ser um grande gênio, sabe?

(A mãe chama o pai a um canto)

─ Eduardo, isso é culpa sua! Você trouxe aqueles livros e mandou ele ler ( como se não bastasse o que ele aprende na escola) aí, ele enche a cabecinha de coisas. Não é mais como os outros garotos da idade dele: não quer sair, nem jogar bola, só fica o dia inteiro lendo ou pesquisando no computador. Passa o dia inteiro, como ele diz “na net”.

─ Eu só quis dar a ele um pouco mais de instrução que nós não tivemos, defendeu-se.

─ Ele é meio ─ justificou a mãe entre preocupada e confusa─ meio, meio...esquisito...

─ Esquisito, não: diferente! ─ interrompeu o pai

De repente, entra o filho na sala todo saltitante e grita:

─ Já sei vou assassinar alguém! ─ disse, com a maior naturalidade desse mundo─ quem sabe o presidente, não sei...

Os pais, boquiabertos, entreolharam-se brancos de susto.

─ Co-mo-é-que-é?!

O menino repete a idéia que teve .

Silêncio; quebrado pela mãe:

─ Está louco por acaso? Não diga isto nem de brincadeira.

─ Que idéia é essa filho? ─ enfim indagou o pai.

─ É que eu quero ser grande, pai!

─ Grande? É, já sei ...ah, sim! E ser um assassino é ser grande? Ahã...muito bonito...

─ Se conseguir matar alguém importante, sim! Eu entraria pra história. Meu nome em todos os livros, revistas, manchetes de jornais... pra sempre!

─ Moleque! Nunca ouvi tanta besteira e você não sab...

─ Ah, é? O cara que matou o presidente Kennedy, não ficou famoso? E o cara que matou o John Lennon, então hein?

─ Sim, sim claro! Vá em frente, mate, mate. E depois que ficar “famoso” “O cara” o que vai fazer ? como vai viver na prisão e sendo odiado por tanta gente?

─ Não sei! Eu sou só um menino: só tenho nove anos!

─ Tem nove anos e meio, quase dez ─ disse a mãe─ e, agora pouco, você disse que já era um “homem feito” lembra-se?

─ Mas vocês não me...

O pai toma a palavra:

─ Filho, olha aqui pra mim. Escuta: tudo bem que você queira ser alguém na vida, queira ser reconhecido. Mas você não precisa ser igual a ninguém e nem provocar escândalos e tragédias para aparecer. Deve se destacar, sim! Mas pelo que você é. E sabe de uma coisa?

─ Quê?

─ Pra mim você pode ser o que quiser: cientista, escritor, filósofo, advogado, músico, pintor, cozinheiro e até gari. Mesmo se não tivesse profissão e não fosse ninguém, quer dizer, ninguém pra esse mundo, eu me orgulharia de você. Pois eu não preciso ver o reconhecimento dos outros pra me convencer de que você é o mais importante, que é grande, que é o melhor do mundo!

E deu um abraço apertado no filho.

─ Vai brincar, vai. Você ainda tem muito tempo para decidir o que vai ser na vida. Deixe de ser precoce, menino! ─ disse em tom juntamente repreensivo e doce.

─ Vamos meu prodígiozinho, brincou a mãe.

Na manhã seguinte (de domingo) o pai se encontrava na varandinha da modesta casa, lendo costumeiramente o seu jornal, quando o filho veio o interromper:

─ Pai, o paiêêê!

─ Tão cedo? Caiu da cama, menino? E vem assim: descalço. Aposto que ainda nem escovou os dentes.

─ Não. É que eu tinha uma coisa pra te contar; não dava pra esperar não.

─ O que é, hein? Vê lá...

─ Já sei...

─ Já sabe o quê?

─ O que vou ser quando crescer.

─ Ah...

─ Vou ser...

─ Escritor? Ah! eu sabia...

─ Não!

─ Não?

─ Não.

─ E o que vai fazer pra ser grande, pra ser importante, “O cara” como tanto diz?

─ Eu vou ser um pai legal que nem você é.

Lidiane Santana



Não sei se todos conhecem, por isso postei. Escrevi isto quando tinha dezessete para dezoito anos. Nessa época eu ainda sonhava em constituir família. Agora sei que ter filhos é uma grande cilada e apoio o controle de natalidade, longe de mim fazer apologia a reprodução nesse mundo superlotado e exausto, nem almejo idealizar um mundo cor de rosa. Não tenho o menor interesse em ter um pirralhinho dependente de mim (por inúmeras razões), mas admiro os bons pais e ainda guardo este texto. Os valores mudam, mas a ternura fica.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Audição

Lá estão os dedos
Perfurados
Que perfuram
O couro
Sobre a mesa
A tesoura e o estilete
Sobre a alma
O peso de costurar o amanhã
É manhã
Como qualquer outra

Ouve o silêncio que está lá fora
Ouve!
Ouve o silêncio que pela alma corre
Ouve!
Ouve o zumbido que ecoa do ouvido
Ouve!
Ouve as máquinas no seu sem sentido
Ouve!
E canta com elas melodias tenebrosas
E ouça sua própria voz se confundindo com o motor
Ouve!
Mas não ouça os seus pensamentos
Não ouve!
Pois quando ouvi-los
Irá chorar
E pensar
O que houve de haver
E nunca haverá nada do que houve
É vida o que você perdeu nesta manhã
E amanhã?

Pegue a fôrma
A que deforma
E vejo onde seu pé se encaixa
Mas não coloque nele
Os seus sonhos
Seus pés estão sujos
Seus pés estão sujos...

Erga a cabeça
Olhe adiante
Diante da janela
É o Sol
Ele sempre brilha
Mas este vidro escuro não percebe
Não percebe
Não!

É o fim
É o fim de um futuro final
É o fim de um instante
É o fim de tudo
É o fim do expediente
E a vida só volta amanhã
De manhã
Ouve!
Não Ouve?
Não!
Não há de haver o que houve ou haverá

E o sapato em que pé está?

"Meu sapato quem será que o calçou?"

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

LACUNA


Tem o honroso silêncio
de um instrumento abandonado
sobre os móveis esquecidos
no desespero que exala
dessas casas em ruínas
rentes paredes despidas
parecem se desfazer
lustres cobertos de pó
sem resíduo algum de luz
grossas portas a desmanchar
Sem razão, aberta a janela:
vidraças despedaçadas
disperso nessa penumbra
um mal serenamente cálido
se alimenta e refugia
à sombra do que outro dia
foi uma sala de visitas
nalgum lugar da memória
alguém me serve o chá
que ao primeiro gole é acre
como essas lágrimas ácidas
que agora me ardem na face
mas bem no canto dos lábios
persiste um lamento doce
A Saudade é uma dor que é como se não fosse...

Lidiane Santana, do livro MÁCULA, Clube dos autores 2011.
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Da compreensão precoce da vida...

O que vai tão cedo pra guerra
Pergunta-se no meio de tudo
Em quê vale os sonhos q ’ela enterra
Sempre preso em algo absoluto

Existência que transcende a circunstância,
Por que os valores se dissolvem?
Diluem-se em outras estâncias
E é quando os sonhos nascem

Mas são coisas tão absurdas
Revelar na vida os sentimentos humanos!
As pessoas anseiam, é grande a turba
Que não enxergam na vida o próprio engano...

Ederson Rocha

O poeta é o cão do seu tempo. (E pode roer teus sapatos também.)


Elias Canetti


"O verdadeiro poeta, porém, o poeta tal como o imaginamos, está subjugado ao seu tempo, do qual é vassalo e lacaio, seu servo mais baixo. Encontra-se atado a ele com uma corrente curta e ilacerável, está preso a ele, sua falta de liberdade precisa ser tão grande que ele não possa ser transplantado para nenhum outro lugar. Sim, não fora certo sabor ridículo diria simplesmente: o poeta é o cão do seu tempo. Passa correndo por seu território, para a aqui e acolá; aparentemente por vontade própria, porém sem se cansar, suscetível a assobios vindo de cima, mas nem sempre, é fácil atiça-lo, difícil chamá-lo de volta, ele é movido por uma devassidão inexplicável; sim, mete o focinho úmido em tudo, não deixa nada de fora, e também volta, recomeça, é insaciável; de resto, come e dorme, mas não é isso que o distingue dos outros seres, o que o distingue é a assombrosa pertinácia do seu vício, esse usufruir intenso e minucioso, interrompido pela correria; assim como nunca está saciado, nunca consegue o que quer com a rapidez necessária; é como se tivesse aprendido a correr expressamente por causa do vício do seu focinho."


“E esse mesmo cão, que durante toda a sua vida corre atrás dos desejos de seu focinho, esse fruidor e vítima involuntária, ao mesmo tempo caçador e presa do prazer (…) deve, num átimo, estar contra tudo, pôr-se contra si mesmo e contra seu vício, sem, contudo, poder jamais libertar-se dele (…); uma exigência tão cruel e radical quanto a própria morte. / É, aliás, da morte que deriva essa exigência. A morte é o fato primordial, o mais antigo e, estar-se-ia mesmo tentado a dizer, o único. Tem uma idade monstruosa, mas se renova a cada hora”




Elias Canetti, “Hermann Broch”, em A consciência das palavras - Tradução: Kristina Michahelles


domingo, 13 de dezembro de 2009

A MÁQUINA

Poema premiado no concurso Alfredo Palermo do CIEE de Franca.

Pesponta de ponta à ponta
E cola a sola e descola
E fica pronta o que apronta,
Mas só rola se o isola.

Quando monta já faz conta
E se’sfola e roda-bitola.
Quem me conta é uma tonta
Que rebola e não me amola!

O riso fácil, ágil; é difícil!
Um friso de cálcio: Um artifício.
Como um guiso farto do seu ócio.

No suor que corre, escorre vida.
Como quem morre pior e ainda
Já não se vinga: Nem há divórcio.