quarta-feira, 10 de março de 2010

1 g 1s o t


para Edson Bueno de Camargo - valeu pela frase inspiradora!






1,50, diz a placa. Suco grátis.

Dizem que não é muito higiênico. A carne assim, exposta ao ar; às bactérias, aos coliformes...

Melhor não pensar. Não pensar na condição da gavetinha de onde ele tira a salada. Não pensar se a colher está encardida, se a faca está enferrujada. Não reparar que ele deixa cair mais carne no chão do que dentro do pão – afinal, os cães também têm de comer.

Juro. Se tivesse dinheiro comia um Big-alguma-coisa. Carne de minhoca. Mais saudável. Nota-se pelo sorriso do palhaço feliz.

Mas até que gosto do bom e velho churrasco grego. O pão francês, sem gergilim. Daqueles cascudos, crocantes. A salada azedinha (será estragada?). Um ou outro pedaço de cenoura e pimentão no meio da carne. “Você não vale nada, mas eu gosto de você”. É como diz a musica tocando na caixa de som. Trilha sonora apropriada, embora não goste da musica.

Exagerei na pimenta. Avermelho, lacrimejo, a língua arde. Tomo três copos de suco antes de o pão terminar. O sei-lá-o-que que prepara o pão, me olha feio. E antes de pagar, começo a encher outro copo.

- É um copo de suco, diz ele.

- O quê? Falo mastigando, dissimulando.

- O suco. É um copo por lanche.

- Tá escrito: suco grátis, contra-argumento. Não tá marcado que é só ‘um’ copo grátis.

- Se fosse mais de um copo, estaria no plural “sucos”, e não “suco” no singular. Isso ele não fala. Sou eu que penso o que diria no lugar dele. Mas o coitado, se aprendeu isso, não deve se lembrar. Não é preciso manjar de concordância para descer o facão na carne, rechear o pão e dar o troco. Eu, depois de quatro anos cursando administração, embora trabalhe como peão de firma, tenho pelo menos um diploma na parede e regras gramaticais na cabeça.

Volto a encher o copo, doido para rir da cara dele. Ele, cortando a carne, doido pra usar a faca em mim.

Demoro. Degusto. Saboreio o suco quente e sem gosto, como se fossa coca-cola gelada. Como se fosse água no deserto. Faço barulho para engolir, deixando uma gota correr até o queixo. Tenho vontade de arrotar. Não, não. Seria provocação demais.

Apanho um guardanapo de papel e um palito (que apesar da falta de placa indicando, sei que são de graça). Palito os dentes estalando a língua. Minha mãe detestava quando fazia isso. Aliás, ela detestaria me ver comento aqui. Por ela, só comia canapé, caviar. Sinto muito, mamãe, se não atingi suas expectativas gastronômicas a meu respeito. Se a tão sonhada faculdade de administração só me rendeu um serviço no almoxarifado. Mas o quê eu seria? Contador? Trabalharia na área financeira de alguma multinacional? Seria mais um? Talvez aqui, entre os não-formados, entre o povão que come churrasco grego, arrota e palita os dentes fazendo barulho, eu me sinta especial. Eu me julgue melhor.

Tiro dois reais amassados do bolso. Dinheiro de bêbado. Hoje, vou ter de ir a pé pra casa. Ele tira a luva plástica, apanha o dinheiro e tira uma moeda de 50 centavos do avental.

- Guarde o troco, digo. Fica pelo suco. Vou ter de ir a pé. Ele não precisa saber.

Saio sorrindo. Vitória! 2 x 0 nas minhas contas. Babaca. Mal dou dez passos, escuto:

- Hei? Chefia?

Me viro. Nem cheguei a ver a moeda voando. Senti o metal na minha testa, como se a ela quisesse atravessar minha cabeça. Aposto que o numero 50 ficou gravado na minha testa.

Olho indignado, sem dizer uma palavra. Ele retorna, sorrindo:

- Como o senhor disse: o suco é de grátis!



– Marcos Roberto Moreira 10/03/10



Edson, morri de rir quando li seus comentários em "Questão de Sobrevivência". Aí, quando você citou churrasco grego pensei:

"Esse personagem tá muito metido mesmo. Com um cartão de crédito infinito e reclamando de comer Big Mc. Burguesinho safado".

Daí, resolvi escrever sobre o outro lado - o comedor de Churrasco grego. Mas não é por que alguém come churrasco grego que não pode ser metido também! rsrsrsrsrs

Bom, valeu pela inspiração. Esse lance de comentar o trabalho um do outro ajuda pra caramba! A droga é que quando acho que fechei meu livro, crio um conto que gostaria que estivesse nele!

*acho que dessa vez consegui um título razoável.

2 comentários:

  1. O título ficou jóia, como se dizíamos a trinta anos atrás.

    Churrasco grego é que nem certos relacionamentos, nos faz mal, mas é muito gostoso.

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  2. Ô, adoro churasco grego! E o conto ficou bom, bem engraçado no final. Parabéns

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