O celular de Rivaldo o desperta todos os dias às 5h e 5m. Ele toma banho, troca-se, e chega ao ponto pelo menos cinco minutos antes do ônibus de quinze para as seis. Por isso se espantou tanto quando, no meio do caminho, viu sua condução passar direto. E não adiantou correr, assoviar ou xingar a mãe do motorista: como não havia ninguém no ponto, o coletivo seguiu acelerado, sem dar atenção ao desespero dele.
Chegou ao ponto suado e resmungando. O próximo passaria só lá pelas 6h e
Sem nada para fazer, a não ser esperar, foi repassando suas ações até então, à procura do que havia dado errado: “será que demorei no banho? Não, não. Talvez... eu fique um tempão procurando aquela meia...” Lembrou de verificar no relógio, se realmente estava atrasado ou se era o motorista que se adiantará. Mas, mal ergueu o pulso e o orelhão ao lado do ponto tocou.
Não precisava mais olhar a hora. Sabia que, há mais ou menos duas semanas, aquele telefone tocava no mesmo horário, sempre quando já estava dentro do ônibus, pagando o cobrador. Ou seja, a culpa era mesmo do motorista. O toque do telefone, porém, fez com que esquecesse do atraso. É que, pela primeira vez, poderia atender ao telefone antes que a mulher do outro lado da rua o fizesse.
É verdade que ele nunca a viu atendendo a chamada. Mas presumia que sim, já que sempre que o aparelho soava, a dita cuja aparecia misteriosamente na calçada oposta. Porém, o coletivo dobrava a esquina sempre antes da mulher sequer mover-se de onde estava. Mesmo assim, era o telefone tocar, e lá estava ela, surgida não se sabe de onde.
Rivaldo tinha curiosidade de saber por que uma mulher como aquela tratava seus assuntos via telefone publico. “Hoje em dia, todo mundo tem celular”, pensava. Ainda mais ela, “com toda aquela pinta de modelo”.
Devia ter 1,90 MT, a pele negra, lustrosa; o longo cabelo em tranças rastafari, o osso saliente da face projetando ainda mais seus lábios carnudos. E a cintura então? Tão fina que se colocasse as mãos ao redor dela, os dedos das duas mãos se encontrariam! Rivaldo não era chagado nas “magrelas.” Gostava de ter onde pegar. Cochas largas, peitos fartos, traseiro grande. Mas aquela mulher... com aquele vestido branco modelando a corpo... projetando seus pequenos seios para cima como se fossem furar os olhos dele mesmo àquela distancia...
Ele aguardou um tempo, para ver como ela reagiria. Nada. Era como se nem respirasse. Rivaldo sorriu sacanamente e tirou o fone do gancho.
- Alô.
E do outro lado:
- 4 8 15 16...
Rivaldo calou-se. E a voz repetiu de forma robótica:
- 4 8 15 16...
E outra vez:
- 4 8 15 16...
A empolgação de Rivaldo transformou-se
Novamente a voz repetia, agora em tom quase irritado:
- 4 8 15 16...
Rivaldo, não se sabe por que, sentia-se na obrigação de responder alguma coisa. Mas o quê? A idéia mais lógica era brincar de siga o mestre. Já que o outro dizia números sem parar, ele faria o mesmo. Pensou na data de nascimento, no seu endereço, no numero que calçava, e a voz lá, repetindo sem parar: 4 8 15 16... , 4 8 15 16... , cada vez mais rápido.
Tirou do bolso seu cartão de ponto. Viu o numero marcado ali e emendou:
- 23 42.
A voz parou. Ele suspirou aliviado. Animou-se. Repetiu a seqüência que de tanto ouvir, decorará:
- 4 8 15 16 completando-a com os números 23 42. Imaginando uma satisfação com a resposta por parte do outro, Rivaldo repetia:
- 4 8 15 16 23 42, 4 8 15 16 23 42...
Um silencio. Então a metálica voz disse:
- Chame a agente.
- Agente? - Assustou-se Rivaldo. Lembrou-se de James Bond, Missão impossível, Sherlock Homes e pequenos espiões. Estaria envolvido numa conspiração internacional? Usaria smoking, caneta explosiva e relógio com raio laser? Conseguiria beijar a boca daquela mulata linda? “Justo hoje não usei meu listerine”, lamentou.
- Chame a agente, repetia a voz.
Ele olhou na direção dela. A mulher agora o fitava por sobre os óculos escuros. Rivaldo tirou o telefone da orelha, estendeu na sua direção, e pela primeira vez ela se pôs em movimento.
Como se estivesse em uma passarela, atravessou a rua. As tranças rastafaris voando ao vento, seus quadris bailando de um lado para o outro, enquanto o toc-toc do salto-alto ecoava pela rua deserta. Ao chegar do outro lado, teve de puxar o fone da mão de Rivaldo, que de boca aberta, quase babando, ficou paralisado olhando para ela.
A bela negra, limitou-se a responder o que quer que lhe perguntasse a estranha voz, com “hum-huns”, “sins” e “afirmativos”. Em poucos segundos, encaixou o telefone no gancho, se aproximou de Rivaldo e colocou as mãos em sua cabeça, cobrindo-lhe os ouvidos. As unhas compridas roçando em sua nuca, provocaram-lhe um arrepio dos pés a cabeça. Ele, imaginando um beijo, fechou os olhos e abriu a boca quase colocando a língua para fora. Mas um súbito formigamento fez com que abrisse novamente os olhos.
Uma forte luz emanava da boca e dos olhos e narinas da mulher, como se todo seu interior fosse constituído de pura energia. E antes que ambos desaparecessem, Rivaldo viu ainda longe, um homem de terno correndo ao encontro dos dois. Não pôde escutar o que dizia, mas pelo movimento dos lábios, parecia algo como “Não a beta, não a beta”. Rivaldo desapareceu imaginando se o nome da mulher seria Roberta, afinal.
Surgiram numa base luminosa, ele e a moça. Havia assistido Jornada nas Estrelas o suficiente para compreender o que aconteceu: haviam se teleportado a à bordo de uma nave.
No comitê de recepção, casais compostos por etnias diferentes: um asiático ao lado de uma mulher britânica, um latino com uma árabe, um semita perto de uma indígena, um esquimó e uma hindu juntos. Notou que sua “parceira” de pele negra também contrastava com ele, que era loiro de olhos claros. Lembrou-se do homem de terno que correu ao encontro deles na terra. Assim como Rivaldo, ele também fazia o tipo ariano. Entendeu que o homem e a negra formavam um casal de agentes, da mesma forma que os ali. Teve um leve desejo de revelar a verdade, mas ora, aquela era um situação única. Ele, fugindo de sua rotina medíocre para estar ali, dentro de uma nave interestelar! Resolveu então aproveitar a experiência, jogar conforme as cartas e assumir o papel que lhe cabia.
Os casais a sua frente abriram então caminho. Detrás deles surgiu um homem de preto com varias emblemas à altura do ombro. Rivaldo o identificou como o “Capitão Kirk” do pedaço.
- Sejam bem-vindos, agente de resgate Luna e agente de campo Rao.
“Pelo visto ela não se chama Beta” , concluiu Rivaldo. “Então, o que será que o outro queria dizer?”
O Capitão o olhou de cima em baixo e disse:
- Ao que parece agente Rao, você cumpriu perfeitamente a missão de misturar-se aos nativos, reproduzindo até mesmo o comum aspecto sedentário deles.
Rivaldo reagiu ao comentário, encolhendo a barriga e estufando o peito:
- É que... bem... ontem fui ao churrasco na casa de um amigo, sabe...
- Pois bem, interrompeu o Capitão, você foi a ultimo agente de campo resgatado, justamente ao final do prazo limite. Todos os outros agentes já deram seu veredicto. O resultado, no entanto, acabou em empate com metade contra e metade a favor da erradicação. Cabe a você o que os terráqueos chamam de o voto de minerva.
Erradicação? Voto de minerva? Aquilo não estava cheirando bem. Rivaldo tinha de descobrir, de alguma forma, de que diacho ele estava falando.
- Hã, me desculpe a... impertinência, Sr. Mas você, quer dizer, o senhor poderia me repassar a... “missão” que eu, hã, executei na terra?
O Capitão o olhou curioso e irritado e limitou-se a dizer:
- Seu pedido será atendido na sala de conferência.
Todos seguiram por um grande corredor, uma espécie de passarela cercada por uma redoma de vidro. Lá fora Rivaldo pode ver a terra, redonda e azul como nos filmes. Emocionado, parou bruscamente, fazendo com que os atrás de si, andando em fila indiana, atropelassem uns ao outros.
O Capitão olhando para trás, vendo aquele tumulto de corpos empilhados, levantou apenas a sobrancelha. Rivaldo respondeu: - Tudo
Chegaram por fim à Sala. Uma platéia os esperava. O Capitão subiu a um púlpito e indicou a Rivaldo que se dirigisse a uma mesa do outro lado do palco. Ele se sentiu como estivesse no show do milhão.
Com todos em seus lugares, o Capitão iniciou a conferencia:
- Agente Rao, no período de dois meses terrestres, o senhor conviveu com os nativos deste moribundo planeta. Assim como todos os outros agentes de campo, o senhor deverá decidir se permitiremos que o planeta chamado Terra, seja dizimado até o ano terrestre de 2012, conforme nossas previsões, ou se interferiremos, erradicando a praga responsável por tal catástrofe, para que o planeta possa continuar a existir.
“Deixar de existir”, “praga”, não vai ser preciso ajuda dos universitários, pensou Rivaldo. Qualquer praga que ameace o planeta, merece ser eliminada da face da Terra!
- Já tomei minha decisão, falou de forma confiante.
- Em caso de não interferência, o senhor deverá puxar a alavanca a sua direita. Em caso de extermínio da praga, acione o botão vermelho a sua frente.
Rivaldo respirou fundo, fechou os olhos, e afundou a mão no botão vermelho.
- Está decidido, sentenciou o Capitão. Por três votos a dois, a raça humana está, nesse momento, sendo erradicada da terra!
O impacto da revelação fez com que Rivaldo desmaiasse. E logo que voltou a si, compreendeu o que o verdadeiro agente tentou lhe dizer:
“Não aperta, não aperta”.
01/03/2010 – Marcos Roberto Moreira
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirAperta!
ResponderExcluirTexto um pouco longo para o espaço, mas está bom, ficção científica com bom humor.
ResponderExcluirDesculpe por ser fominha e ocupar esse espaço todo Edson. É que gosto de testar mesmo textos novos aqui. Saber a opinião de outros escritores.
ResponderExcluirSó não estou satisfeito com o título desse. No caso do Bom Samaritano, eu tinha um nome mas relutei em usar. Nesse, não pensei em nada melhor...
A culpa é dessa mania de que tudo tem de ter nome!
O que vc acha? Consegue pensar num título melhor? (acho q não é mto dificil)
"A praga" é um título forte. precisa ver se ele não entrega o final, seja qual o título a surpresa tem de ser preservada. Embora seja difícil também para mim dar títulos.
ResponderExcluirO toque de humor é muito legal, soltei uma boa gargalhada no final, e o mais importante é que o conto mantém a tensão do começo ao fim.